quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pierre Bourdieu e os Estados do Capital Cultural


É a partir do capital cultural[1] que Bourdieu analisa o desenvolvimento do processo escolar. A sociologia da educação desse estudioso caracteriza-se pela diminuição do peso do fator econômico em relação ao peso do fator cultural para a explicação das desigualdades escolares.
O capital cultural pode existir sob três formas: o estado incorporado, o estado objetivado e o estado institucionalizado.
O estado incorporado acontece sob a forma de disposições duráveis do organismo, tendo como principais elementos constitutivos os gostos, o domínio maior ou menor da língua culta e as informações a respeito do mundo escolar:

Sendo pessoal, o trabalho de aquisição é um trabalho do “sujeito” sobre si mesmo (fala-se em “cultivar-se”). O capital cultural é um ter que se tornou ser, uma propriedade que se faz corpo e tornou-se parte integrante da “pessoa”, um habitus. Aquele que o possui “pagou com sua própria pessoa”e com aquilo que tem de mais pessoal, seu tempo. Esse capital “pessoal” não pode ser transmitido instantaneamente (diferentemente do dinheiro, do título de propriedade ou mesmo do título de nobreza) por doação ou transmissão hereditária, por compra ou troca (BOURDIEU, 1998, p. 74-75) 

O capital cultural no seu estado incorporado constitui, assim, a herança familiar que atua de forma mais marcante na definição do futuro escolar dos descendentes, uma vez que as referências culturais, os conhecimentos considerados apropriados e legítimos, facilitam o aprendizado dos conteúdos e dos códigos escolares.
No estado objetivado, o capital cultural acontece por meio de bens culturais – pinturas, livros, esculturas, etc. Esse capital cultural objetivado é transmissível em sua materialidade. “Mas o que é transmissível é a propriedade jurídica e não (ou não necessariamente) o que constitui a condição da apropriação específica” (BOURDIEU, 1998, p. 77). Ou seja, a possessão de instrumentos que permitam desfrutar de uma pintura ou um livro.
O estado institucionalizado, por sua vez, representa o capital cultural sob a forma de títulos escolares. Nas palavras de Bourdieu (1998), o capital institucionalizado permite estabelecer taxas de convertibilidade entre o capital cultural e o capital econômico: o que garante um valor em dinheiro de determinado capital cultural. Esse capital cultural, garantido pelo diploma, pode ser trocado no mercado de trabalho. É relevante destacar que o diploma serve como base de comparação e o reconhecimento de determinado certificado escolar depende do prestígio da instituição onde ele foi conseguido. Podemos inferir, então, que o grau de investimento na carreira escolar está vinculado ao retorno provável que se pode obter pelo título escolar no mercado de trabalho. A objetivação do capital cultural sob a forma de diploma torna-se, assim, um grande mote de diferenciação entre as classes e a respectiva legitimidade de suas relações com a cultura.
Não é difícil imaginar quais são as instituições de prestígio de nossa sociedade e quem são os detentores de seus certificados. Segundo Bourdieu (1998):

Um jovem da camada superior tem oitenta vezes mais chances de entrar na Universidade que o filho de um assalariado agrícola e quarenta vezes mais de um filho de operário, e suas chances são, ainda, duas vezes superiores àquelas de um jovem de classe média. (p. 41)

Para o autor, essa eliminação contínua das crianças desfavorecidas é justamente o fruto da ação do privilégio cultural de determinadas classes em detrimento de outras. O capital cultural incorporado é fundamental na diferenciação do processo escolar.

[...] cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, um certo capital cultural e um certo ethos, sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui para definir, entre coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição escolar. A herança cultural, que difere, sob os dois aspectos, segundo as classes sociais, é a responsável pela diferença inicial das crianças diante da experiência escolar e, consequentemente, pelas taxas de êxito. (BOURDIEU, 1998, p. 41-42)

 Temos assim um ciclo vicioso latente inserido no regime de distribuição de diplomas e da democratização da cultura, em que o acesso é restrito aos detentores dos capitais econômico e cultural. A escola garante, segundo Bourdieu, a reprodução dessa realidade, quando deveria fornecer meios para a negação e posteriormente para a superação desse quadro.
Em síntese, a herança cultural que cada família transmite é constituída pelo capital cultural e pelos ethos, que se diferem em cada grupo social. Essa herança será construída por um conjunto de saberes, informações, códigos linguísticos, mas também por atitudes, disposições e posturas que, na concepção bourdieusiana, influenciarão diretamente os êxitos escolares. As desigualdades escolares são, dessa maneira, oriundas das diferentes heranças culturais dos agentes.


[1] “A noção de capital cultural impôs-se, primeiramente, como uma hipótese indispensável para dar conta da desigualdade de desempenho escolar de crianças provenientes das diferentes classes sociais, relacionando o “sucesso escolar”, ou seja, os benefícios específicos que as crianças das diferentes classes e frações de classe podem obter no mercado escolar, à distribuição do capital cultural entre as classes e frações de classe. Este ponto de partida implica em uma ruptura com os pressupostos inerentes, tanto à visão comum que considera o sucesso ou fracasso escolar como efeito das “aptidões” naturais, quanto às teorias do capital humano”. (BOURDIEU, 1998, p. 73) 

Um comentário:

Anônimo disse...

Ficou mais simples compreender o pensamento de Bourdieu na relação do fracasso escolar com o capital cultural.